terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

RECICLAGEM RECICLA?


Quando penso no barro nas mãos do olheiro, onde ele começa a fazer do barro um vaso e este vaso se desfaz ou não sai como ele gostaria e faz da mesma massa um vaso novo. Penso que se o Curso de Reciclagem, não seria uma forma de olaria.

Um dia desses, numa aula de Curso de Reciclagem para Condutor Infrator, Pedi a cada aluno que falasse um pouco sobre sua vida no trânsito como motorista e o motivo das infrações cometidas e as razões por estar ali no curso.

Impressionante são os relatos feitos por cada aluno!

À priori, todos (com raríssimas exceções)  não sentem culpa pelos erros (infrações) cometidos; não sentem-se culpados por infligir uma regra social, nem por causar a infração ou por violar os direitos alheios. Ainda, durante os relatos, os motoristas contam que se iniciam no "mundo" das infrações ainda na Permissão Para Dirigir, Dizendo que, tem sempre um jeitinho para burlar a Lei. O problema é que o "jeitinho", como uma criança que nasce, cresce e vira um adulto, torna-se um "jeitão" perigoso e danoso.

Um dos alunos falou que estava ali depois de 12 meses de suspensão por causa da ingestão de álcool e dirigir. Perguntei a ele, se ele tinha mudado seus conceitos, sua consciência e comportamento depois da punição de 12 meses sem poder dirigir e pagar uma multa de quase 3 mil reais e a resposta foi taxativa, foi um NÃO bem no estilo brasileiro, com um sorrindo no ar...

..e ainda disse que está dirigindo e bebendo, só que agora COM CUIDADO.

Perguntei a ele o que seria beber e dirigir com cuidado. A resposta foi: “beber e dirigir tomando os cuidados para não ser parado numa blitz”.


Muita gente, não sente nenhum remorso ou no mínimo um sentimento de respeito a si próprio pela infração cometida ou pela punição recebida. Veem isso como uma situação comum do mundo moderno. Como se o pensamento discorresse da seguinte forma: Se tenho um veículo é normal que eu seja multado e se sou multado é porque tenho um veículo.

O trânsito manifesta em certos individuo um problema de Transtorno de Personalidade, certa Sociopatia no Trânsito, caracterizado por um desprezo das obrigações sociais, falta de empatia para com os outros, falta de respeito com o próximo, atitudes altruístas e até mesmo certos sentimentos de disputa, de chegar primeiro em algum lugar. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas, teoria e prática parecem que no trânsito são realmente inimigas públicas. O ditado Faça o Que Eu Digo, Não Faça o Que Eu Faço, no trânsito é fato.

O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade no trânsito. No trânsito todo mazela (desonra) do homem é exposto aos olhos de toda sociedade e familiares do condutor.
  
Geralmente, em casa, no trabalho, na escola, em seu convívio social no clube ou na igreja ou ainda, em quer organização social, essa pessoa é um cidadão exemplo de conduta, de respeito, de moralidade e honestidade, sendo considerado até mesmo um apaziguador. Porém, quando acessa o trânsito, O cidadão/motorista transformasse numa personalidade agressiva, antipática, apressada, mal-humorada.

Este motorista, que até então era um cidadão exemplar, agora  grita, xinga, dá fechada, não permite a ultrapassagem, encosta na traseira do veículo que vai a sua frente, faz manobras perigosas, comete infrações, acidentes e até em casos extremos causa lesões ou mortes.

No trânsito  vive uma conduta exacerbada, norteada de negligencia e imprudência.

A Sociopatia no Trânsito não é privilégio de motoristas com anos de carteira, visto que esse comportamento inicia com exemplos socialmente aceitos em todas as camadas.

Exemplos:
Os pais que dirigem imprudentemente ou negligentemente com seus filhos dentro dos veículos. Não respeitam sinais de trânsito, velocidade da via, fazem manobras perigosas e proibidas;

Os Agentes da Autoridade de Trânsito, que autuam motociclistas por pilotar com viseira levantada e eles próprios andam com viseira levantada. 

Enfim, todo tipo de autoridade, que usa sua posição para burlar a lei e depois exigem que os motoristas andem corretos É HIPOCRISIA SOCIAL. Faz-se vista grossa ao mau comportamento dos agentes que devem ser exemplos de quem irá punir a conduta errada.   

Então, indago-me: Será que o curso de RECICLAGEM PARA CONDUTOR INFRATOR muda o comportamento de forma positiva e correta ou apenas  cria dispositivos para a Sociopatia do Trânsito ficar mais elaborada?


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